Mandioca, aipim ou macaxeira? O mapa das palavras que mudam de estado para estado
A mesma raiz tem três nomes e o biscoito vira bolacha na divisa. O que o Atlas Linguístico do Brasil descobriu ouvindo brasileiros de todo o país.
Equipe Quizzando · 7 min de leitura
Peça “macaxeira frita” num bar de Belém e ninguém pisca. Peça a mesma coisa em Porto Alegre e talvez o garçom pergunte se você quer aipim. Em São Paulo, o cardápio provavelmente diz mandioca. A raiz é a mesma, o prato é o mesmo, a vontade de comer também. Só o nome muda.
O Brasil é um país continental que fala uma só língua, mas não fala do mesmo jeito. E existe um projeto científico inteiro dedicado a registrar essas diferenças, palavra por palavra, cidade por cidade.
1. O que é o Atlas Linguístico do Brasil
O Atlas Linguístico do Brasil, conhecido pela sigla ALiB, é um projeto que tem como meta fazer um atlas geral da língua portuguesa falada no país. Ele nasceu de uma iniciativa de pesquisadores do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e hoje envolve doze universidades.
A ideia é antiga. Em 1952, um decreto já dava à Comissão de Filologia da Casa de Rui Barbosa a tarefa de elaborar “o atlas linguístico do Brasil”. As dificuldades eram tantas que os estudiosos começaram pelos atlas regionais, estado por estado, antes de enfrentar o país inteiro.
Como funciona, na prática:
- A rede de pontos tem 250 localidades espalhadas por todo o Brasil, escolhidas por critérios demográficos, históricos e culturais. Entram cidades grandes e médias e todas as capitais, com exceção de Brasília e Palmas, que, quando a rede foi montada, eram cidades novas demais para ter moradores adultos nascidos nelas.
- Em cada ponto, pesquisadores entrevistam moradores com questionários padronizados. Perguntas como “como se chama aquela raiz que se come cozida ou frita?” permitem comparar as respostas de norte a sul.
- Os dois primeiros volumes saíram em outubro de 2014: um de introdução e outro com 159 cartas linguísticas (os mapas) feitas com dados de 25 capitais. Um terceiro volume, de comentários às cartas, foi lançado em novembro de 2023.
2. Mandioca, macaxeira, aipim: o que os mapas mostram
O questionário do ALiB tem duas perguntas separadas para a raiz: uma sobre a mandioca de comer (a “mansa”) e outra sobre a mandioca brava, que não pode ser consumida crua porque tem alto teor de ácido cianídrico e precisa de processamento, como na fabricação de farinha.
Um estudo do professor Valter Pereira Romano, da Universidade Federal de Santa Catarina, analisou essas duas perguntas na Região Norte, com 96 entrevistados em 24 municípios. O resultado:
- Para a raiz de comer, macaxeira apareceu em 83,6% das respostas, mandioca em 11,8% e aipim em 4,5%. Macaxeira foi a única resposta em 16 dos 24 pontos.
- O Tocantins foi a exceção da região: lá predominou mandioca, e aipim também apareceu.
- Para a raiz brava, a palavra mais usada foi mandioca (75%), seguida de mandioca brava.
Repare no detalhe curioso: no Norte, muita gente usa “macaxeira” e “mandioca” para coisas diferentes. Uma é a que vai para a panela; a outra é a que vira farinha. O próprio estudo observa que essa distinção não aparece da mesma forma em outras regiões, e que, pelos dados reunidos até então, macaxeira é a forma predominante no Norte, enquanto aipim e mandioca predominam no Centro-Sul. A pesquisa nacional completa ainda estava em andamento quando o artigo saiu, em 2020.
Os dicionários registram a mesma geografia. O Aulete marca macaxeira como palavra do Nordeste (“N.E.”) e informa que ela vem do tupi. Aipim também vem do tupi. E mandioca aparece como o nome geral da planta, com macaxeira e aipim como sinônimos em alguns sentidos. Ou seja: as três palavras são brasileiríssimas, e duas delas são herança direta das línguas indígenas.
A raiz, aliás, é patrimônio em mais de um sentido. Em março de 2026, o Iphan registrou como Patrimônio Cultural do Brasil os saberes e práticas dos engenhos de farinha de mandioca de Santa Catarina: raspar, lavar, ralar, prensar, peneirar e torrar a massa no forno a lenha, muitas vezes em mutirões chamados de farinhadas.
3. Outros campeões de nomes
A mandioca não está sozinha. Os dicionários registram vários casos de “uma coisa, muitos nomes” com marca regional:
- Abóbora ou jerimum. O Aulete marca jerimum como palavra do Norte e do Nordeste, também de origem tupi. O mesmo estudo do Norte cita a pergunta do ALiB sobre abóbora como exemplo de variação que aparece até onde o questionário não esperava.
- Tangerina, mexerica ou bergamota. Para o Aulete, bergamota no sentido da fruta é uso do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Mexerica remete a tangerina. A fruta é a mesma em todos os casos.
- Pipa ou pandorga. O Aulete define pandorga como papagaio de papel, ou pipa. (E papagaio, claro, também é outro nome para a mesma brincadeira.)
- Semáforo, sinal ou sinaleira. Sinaleira aparece no dicionário como sinônimo de semáforo, sinal e farol.
Para cada um desses pares, há mapas e estudos do ALiB e de atlas regionais. Aqui ficamos no que os dicionários registram, porque a distribuição exata por cidade exige consultar as cartas do atlas, uma por uma.
4. Biscoito ou bolacha: o debate eterno
Nenhuma discussão regional é tão animada quanto esta. O que dizem os dicionários? O Aulete define bolacha como um tipo de biscoito: “biscoito achatado”, em forma de disco ou retangular. E define biscoito de forma mais ampla, como alimento assado ou frito, que leva farinha, ovos, leite e outros ingredientes, em formato de quadrados, rodelas etc. Pelo dicionário, toda bolacha é um biscoito, mas nem todo biscoito é bolacha.
Isso resolve a briga? Claro que não. Na vida real, cada região escolheu a sua palavra para o pacotinho do supermercado, e cada um defende a sua com a convicção de quem defende o time do coração. Não encontramos, nas fontes que conseguimos conferir, um mapa nacional confiável de “biscoito versus bolacha”; por isso, não vamos inventar um. Se você souber de um estudo do ALiB sobre isso, escreva para a gente.
5. Por que a língua varia (e por que ninguém está errado)
A variação regional não é erro, preguiça nem “português ruim”. Ela tem explicação:
- Quem chegou primeiro. Palavras como macaxeira, aipim e jerimum vêm do tupi. Onde o contato com línguas indígenas foi mais forte e duradouro, essas palavras ficaram.
- Quem chegou depois. Imigrantes, migrantes e rotas comerciais levaram palavras de um canto para outro. O próprio estudo do Norte sugere que a ocupação e os fluxos migratórios ajudam a explicar por que o Tocantins fala diferente de seus vizinhos.
- Fronteiras que não são linhas. Os linguistas observam que as áreas de uso não terminam de repente na divisa do estado. Elas vão se misturando aos poucos, num degradê.
Para quem estuda a língua, a pergunta nunca é “qual é o certo”. É “quem fala assim, onde e por quê”. A raiz que você frita no domingo carrega um pedaço da história do lugar onde você cresceu.
Teste o que você aprendeu
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Fontes
Todas acessadas em 28/10/2026.
- Projeto ALiB (UFBA): Histórico: origem do projeto, doze universidades, decreto de 1952, lançamento dos volumes I e II em outubro de 2014 (159 cartas, 25 capitais).
- Projeto ALiB (UFBA): Rede de pontos: 250 localidades, critérios e exceção de Brasília e Palmas.
- Projeto ALiB (UFBA): lançamento do volume 3: novembro de 2023.
- Romano, V. P. Macaxeira e mandioca na Região Norte do Brasil nos dados do Projeto ALiB. Revista Porto das Letras, 2020: percentuais da Região Norte, exceção do Tocantins e áreas lexicais.
- Dicionário Caldas Aulete: verbetes mandioca, aipim, macaxeira, jerimum, bergamota, mexerica, pandorga, sinaleira, biscoito e bolacha.
- Iphan: engenhos de farinha de mandioca de Santa Catarina: registro em 11/03/2026 no Livro dos Saberes.
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