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De onde vêm o panetone, a rabanada e o Papai Noel de casaco no calor

O panetone é milanês, a rabanada tem receita escrita há mais de 400 anos e o Papai Noel de casaco veio do inverno do Hemisfério Norte. Leia as origens.

Equipe Quizzando · 6 min de leitura

Enciclopédia de gorro vermelho, Ainda desembaraçando o pisca-pisca, Monta o presépio, mas esquece o Rei Mago: perfis do quiz “Quiz do Natal brasileiro: de onde vêm as nossas tradições?”.

Faz 35 graus, o ventilador está no máximo e, na sala, um boneco de Papai Noel de casaco de lã, gorro e botas pretas sorri ao lado de uma árvore coberta de neve de algodão. Na mesa, panetone, rabanada e frutas secas, comida pensada para o inverno europeu. O Natal brasileiro é uma colcha de retalhos de tradições vindas de longe, adaptadas (ou não) ao verão tropical.

De onde veio cada pedaço? Fomos atrás das origens, com uma regra: o que não tem fonte confiável fica de fora, e o que é lenda aparece como lenda.

1. Panetone: de Milão para a mesa brasileira

O panetone é um pão doce de massa fermentada, com frutas cristalizadas e passas. O dicionário Aulete o define assim e acrescenta: originário da tradição italiana, tornou-se, no Brasil, muito comum na época de Natal.

A origem é milanesa, do noroeste da Itália. O nome provavelmente vem da palavra milanesa panatón ou panattón, mas a origem e o significado exatos do termo são discutidos.

A lenda do Toni. Existe uma história muito repetida: um confeiteiro de Milão chamado Toni teria criado o pão na Idade Média e o dedicado à sua amada, e o “pão de Toni” teria virado “panettone”. É uma história bonita, mas a enciclopédia é taxativa: não há nenhuma evidência histórica que a sustente. Fica como lenda.

A chegada ao Brasil. O panetone veio com os imigrantes italianos, entre o fim do século XIX e o começo do século XX. A produção industrial no país começou em meados da década de 1950, por uma empresa fundada por um ítalo-brasileiro, e de lá para cá surgiram variações, como a versão com gotas de chocolate.

O debate “panetone com fruta cristalizada ou com chocolate?” é tão brasileiro quanto o próprio Natal no calor. Não vamos tomar partido aqui. (Está no quiz.)

2. Rabanada: o doce que aproveitava o pão

A rabanada é feita com fatias de pão embebidas em leite, vinho ou calda, passadas no ovo e fritas (ou assadas). Em Portugal, é sobremesa de Natal presente em muitas mesas da consoada, a ceia da véspera. No Brasil, é feita para a época de Natal e servida na ceia; depois de frita, costuma ser banhada em suco de frutas ou leite condensado.

A história é bem mais antiga do que parece:

  • Por volta de 1300, o cozinheiro francês Guillaume Tirel já registrava uma receita de “tostées dorées” no livro Le Viandier.
  • No século XV, o poeta espanhol Juan del Encina mencionava as rabanadas com mel e muitos ovos, recomendadas para a recuperação depois do parto.
  • As primeiras receitas escritas de rabanada aparecem em livros espanhóis de 1607 e 1611.

O doce tem parentes no mundo todo: o pain perdu francês (literalmente, “pão perdido”), a French toast dos países de língua inglesa, as torrijas espanholas e as torrejas da Argentina e do Uruguai. Até em Portugal o nome mudava: ao sul do rio Mondego, o mesmo doce era chamado de “fatia dourada” ou “fatia de parida”.

O fio comum é a economia: pão amanhecido, que iria para o lixo, vira sobremesa. A enciclopédia sugere que a ligação com a Quaresma e com períodos de jejum vem justamente daí, do aproveitamento do pão nos dias sem carne.

3. Papai Noel no calor de 35 graus

O Papai Noel que conhecemos é resultado de séculos de mistura.

O santo. A figura se inspira em São Nicolau, bispo cristão do século IV, conhecido pelos presentes dados em segredo e pela generosidade com os pobres.

Os holandeses em Nova York. Imigrantes holandeses levaram a tradição de Sinterklaas para a antiga Nova Amsterdã, a atual Nova York. O nome, adaptado ao inglês, virou Santa Claus.

O poema e o trenó. Em 1823, um poema anônimo publicado num jornal de Troy, em Nova York, “A Visit from St. Nicholas”, descreveu o trenó puxado por renas voadoras e ajudou a fixar a imagem moderna. A autoria foi reivindicada depois por Clement Clarke Moore, embora haja quem defenda outro autor.

O desenho. O cartunista Thomas Nast ajudou a definir o visual do bom velhinho em ilustrações para a revista Harper’s Weekly, a partir de 1863.

E o refrigerante? As pinturas de Papai Noel feitas por Haddon Sundblom para anúncios de um refrigerante, nos anos 1930, espalharam a imagem pelo mundo. Mas a história de que essa marca inventou o Papai Noel ou a roupa vermelha é tratada pela enciclopédia como lenda urbana: o personagem já aparecia de vermelho e branco em capas de revista no começo do século XX, e outra marca de bebida já o usava em anúncios em 1915.

E o casaco no Brasil? A roupa de inverno, com gorro, botas e pele, faz todo sentido no Natal do Hemisfério Norte, que cai no inverno. Aqui, onde dezembro é verão, o Papai Noel de shopping continua suando de casaco de veludo, por pura fidelidade à imagem importada. Já houve tentativas de adaptar o personagem às cores nacionais, inclusive em campanhas publicitárias brasileiras com um Papai Noel de roupa verde.

4. O presépio e outras tradições

O presépio. O primeiro presépio vivo é atribuído a São Francisco de Assis, em 1223, na cidade italiana de Greccio. Segundo a enciclopédia, ele teria se inspirado numa visita à Terra Santa, onde conheceu o local tradicional do nascimento de Jesus. Essa primeira montagem parece ter sido uma representação encenada, com pessoas, e não uma montagem com estatuetas. O relato está na biografia do santo escrita por São Boaventura, por volta de 1260.

A ceia da meia-noite. A tradição de esperar a meia-noite do dia 24 para comer e trocar presentes divide famílias brasileiras com quem prefere o almoço do dia 25. Não encontramos fonte confiável que explique a origem desse costume no Brasil, por isso fica sem história aqui.

As frutas da estação. Na mesa brasileira, as frutas secas da tradição europeia dividem espaço com as frutas do nosso verão, para alívio de quem sente calor.

E a uva-passa no arroz? Esse é o debate que mais divide a ceia nacional. Não existe resposta certa, só a sua.

Teste o que você aprendeu

Você sabia de onde veio cada tradição? Teste no Quiz do Natal brasileiro.

Fontes

Todas acessadas em 28/10/2026.

  • Dicionário Caldas Aulete: panetone: definição, tradição italiana e uso no Natal brasileiro.
  • Wikipédia: Panetone: origem milanesa, etimologia discutida, lenda do Toni sem evidência histórica, imigração italiana e início da produção industrial no Brasil em meados dos anos 1950. A própria página traz aviso de revisão de fontes; usamos só os pontos centrais.
  • Wikipédia: Rabanada: preparo, consoada portuguesa, Natal brasileiro, Le Viandier (c. 1300), Juan del Encina (século XV), receitas de 1607 e 1611, nomes regionais e pratos semelhantes.
  • Wikipédia: Pai Natal (Papai Noel): São Nicolau, Sinterklaas, poema de 1823, Thomas Nast (1863), Haddon Sundblom e a “lenda urbana” do refrigerante, Papai Noel de verde no Brasil.
  • Wikipédia: Presépio: São Francisco de Assis, Greccio, 1223, São Boaventura.

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