Réveillon: de onde vêm o branco, as sete ondas e a lentilha
Por que o Brasil veste branco na virada, o que as sete ondas têm a ver com Iemanjá e de onde vieram a lentilha, as doze uvas e a romã. Leia.
Equipe Quizzando · 6 min de leitura
São 23h50 do dia 31. Na praia, uma multidão de branco. Alguém segura um prato de lentilha, outro conta doze uvas, uma tia confere se as sementes de romã estão na carteira, e um grupo se prepara para entrar no mar e pular sete ondas. Pouca gente sabe explicar de onde veio cada gesto, mas quase ninguém arrisca deixar de fazer.
O Réveillon brasileiro é uma mistura de tradições africanas, europeias e de crenças que ninguém consegue datar com precisão. Este texto separa o que tem registro do que é tradição popular. E começa com um aviso honesto: nenhuma dessas práticas tem comprovação de que traz sorte. Como diz uma das fontes que consultamos, isso “não se pode afirmar”. Mas elas dizem muito sobre quem somos.
Uma curiosidade antes: a palavra réveillon é francesa. O dicionário Aulete a define como a reunião e ceia festiva na passagem do ano.
1. Por que branco
A roupa branca na virada é tão brasileira que muita gente acha que é costume universal. Não é. As fontes que consultamos ligam o hábito às religiões de matriz africana e afro-brasileira, como o candomblé e a umbanda, em que o branco está associado à paz.
Sobre quando o costume se popularizou, há uma pista. Um texto publicado pela agência de notícias do governo de Goiás, escrito por um historiador, diz que há indicações de que o hábito começou nos anos 1960, quando grupos de candomblé e umbanda frequentados pela classe média carioca passaram a se reunir na praia de Copacabana para celebrar a passagem do ano. Os frequentadores da praia teriam, então, espalhado o costume pelo país. Repare no “há indicações”: é uma hipótese bem fundamentada, não uma data cravada.
2. As sete ondas e as oferendas a Iemanjá
Quem é Iemanjá. Iemanjá é um orixá de origem iorubá, da região da atual Nigéria. Na tradição, é uma divindade da fertilidade, originalmente associada aos rios e às desembocaduras. Seu culto principal se estabeleceu em Abeocutá, ligado ao rio Ogum, e dali ela se manifestaria em qualquer outra água. No Brasil, também é chamada de Dona Janaína. É considerada mãe dos peixes, protetora das crianças e dos idosos e padroeira dos pescadores.
As festas. Em Salvador, a entrega de presentes a Iemanjá na praia do Rio Vermelho acontece em 2 de fevereiro, e a prefeitura a descreve como a maior manifestação dedicada a um orixá na Bahia.
As sete ondas. O ritual de pular sete ondas é ligado, pelas duas fontes oficiais que consultamos, às tradições africanas e a Iemanjá. A crença é de que pular as ondas “abre os caminhos” para o ano que começa. O número sete é visto como espiritual, um “número mágico” que une o divino e o humano. As fontes lembram que o costume é ligado especialmente às religiões afro-brasileiras, mas não só a elas: hoje, gente de todas as crenças pula as ondas.
Um gesto de respeito: quem não é da religião e quer participar da festa pode fazê-lo sem problema, mas vale não mexer nas oferendas deixadas na areia e não tratá-las como lixo ou decoração.
3. Lentilha, romã e uvas: tradições que chegaram de fora
Lentilha. A lentilha da meia-noite está associada à abundância e à prosperidade. Segundo a MultiRio, da Prefeitura do Rio, o costume tem origem italiana e chegou com os imigrantes. Há quem acredite que o formato do grão, parecido com uma moeda, seja o motivo da associação com dinheiro. Outra fonte lembra que a ligação da lentilha com fartura e fecundidade vem de tempos pré-cristãos.
Doze uvas. Comer doze uvas à meia-noite, uma a cada badalada, é tradição espanhola. Segundo a MultiRio, o costume dataria de 1909, quando o rei Afonso XIII teria distribuído uvas depois de uma colheita farta. Alguns acreditam que cada uva representa um mês de sorte; outros fazem doze pedidos.
Romã. A romã é associada à abundância e à fertilidade. Os romanos ligavam seu consumo à fertilidade, especialmente nos casamentos, e o cristianismo depois a leu como metáfora da relação entre as pessoas e Deus. O costume de guardar sementes de romã na carteira para atrair sorte e dinheiro no ano novo é ligado tanto à tradição grega quanto aos costumes católicos do Dia de Reis, em 6 de janeiro.
Champanhe e fogos. A origem do brinde com espumante não é conhecida com certeza; a bebida era apreciada pela alta sociedade e, depois, associada às cortes europeias. Já os fogos de artifício, segundo a MultiRio, são atribuídos à China, onde teriam sido criados para espantar maus espíritos.
4. As cores da roupa e o que cada uma “promete”
Além do branco, muita gente escolhe a cor da roupa (ou da roupa de baixo) conforme o desejo para o ano: vermelho para o amor, amarelo para o dinheiro, e assim por diante. Segundo o texto da agência de Goiás, esse costume aparece no Brasil, no Peru e no Equador, e não tem uma origem conhecida.
A lista de significados varia de família para família e de site para site, e não encontramos nenhuma fonte confiável que estabeleça uma “tabela oficial” de cores. Por isso, não vamos inventar uma. Se na sua casa o verde é para a saúde e o azul é para a paz, essa é a regra que vale.
O que as fontes deixam claro é o que todas essas práticas têm em comum: são formas de começar o ano com esperança, cada uma trazida por um povo diferente que fez o Brasil. A roupa branca do candomblé, a lentilha dos italianos, as uvas dos espanhóis e a romã dos gregos e dos católicos dividem a mesma praia à meia-noite. Isso, sim, é bem brasileiro.
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Fontes
Todas acessadas em 28/10/2026.
- MultiRio (Prefeitura do Rio): A origem dos costumes que fazem parte da noite de Ano-Novo, por Fernanda Fernandes (29/12/2015): branco e religiões de matriz africana; sete ondas; lentilha de origem italiana; doze uvas e 1909; romã e Dia de Reis; champanhe; fogos; aviso de que não se pode afirmar que as práticas trazem sorte.
- Agência Brasil Central (Governo de Goiás): Romãs, ondas e outras tradições, por Givaldo Corcinio (31/12/2020): indicações sobre os anos 1960 em Copacabana; sete ondas e o número sete; romã entre os romanos e no cristianismo; lentilha desde tempos pré-cristãos; cores no Brasil, no Peru e no Equador.
- Wikipédia: Iemanjá: origem iorubá, Abeocutá e rio Ogum, Dona Janaína, atributos, festa de 2 de fevereiro no Rio Vermelho.
- Prefeitura de Salvador: Festa de Iemanjá: maior manifestação dedicada a um orixá na Bahia.
- Dicionário Caldas Aulete: réveillon
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