Como era a escola antigamente: do mimeógrafo ao celular proibido
Mimeógrafo, fila do hino, caderno de caligrafia: o que mudou na escola brasileira em números e o que diz a lei de 2025 sobre o celular.
Equipe Quizzando · 6 min de leitura
Quem estudou nas décadas de 1960, 1970 ou 1980 tem um arquivo de memórias que vem com cheiro e som. O cheiro adocicado da folha de prova recém-saída do mimeógrafo, ainda úmida. O barulho do giz no quadro-negro. O sinal do recreio, a merenda servida no prato de plástico, o uniforme com o nome da escola bordado no bolso.
Muita coisa mudou desde então: quem está na escola, quanto tempo fica lá e o que pode levar na mochila. Outras, nem um pouco. Vamos às duas partes.
1. A escola de 40 anos atrás
Esta parte é memória, não estatística. Cada escola tinha suas manias, e a sua pode ter sido bem diferente. Mas alguns objetos e rituais aparecem em quase toda conversa de quem tem mais de 50 anos:
O mimeógrafo. Antes da fotocopiadora barata, as provas e exercícios eram rodados nessa máquina de manivela, com uma matriz de papel especial e álcool. A cópia saía em roxo ou azul e manchava os dedos. Quem chegava cedo à sala às vezes ganhava a primeira folha, ainda com cheiro forte.
O caderno de caligrafia. Linhas duplas, letra cursiva, a mesma frase repetida até a página acabar. Borrões de tinta eram um drama.
A cartilha. O primeiro livro de leitura, com sílabas, desenhos e frases curtas que muita gente ainda sabe de cor.
O hino e a fila. Em muitas escolas, a semana começava com a turma em fila no pátio, cantando o hino, com a bandeira hasteada.
A merenda. Sopa, arroz-doce, mingau, sanduíche de mortadela. Cada geração tem o prato que ama e o que detestava.
A régua, o compasso e o transferidor. O estojo era um patrimônio. Quem tinha a caixa de lápis de cor com 36 cores era respeitado no bairro.
A lousa e o apagador. Bater o apagador na janela para tirar o pó de giz era quase uma honraria, concedida ao aluno da vez.
2. O que mudou em números
A escola de hoje atende muito mais gente, por mais tempo. Os números oficiais mostram a virada:
Mais anos de estudo. Segundo o IBGE, a média de anos de estudo das pessoas de 25 anos ou mais chegou a 10,2 anos em 2025, contra 9,1 anos em 2016. As mulheres têm média maior (10,4 anos) que os homens (10,0 anos). As diferenças regionais continuam grandes: Sudeste (10,9 anos) e Centro-Oeste (10,8) acima da média; Norte (9,7) e Nordeste (9,0) abaixo.
Menos analfabetismo, mas um desafio que ficou com os mais velhos. Em 2025, o Brasil tinha 8,4 milhões de pessoas de 15 anos ou mais que não sabiam ler e escrever, uma taxa de 4,9%. Entre as pessoas de 60 anos ou mais, a taxa caiu de 20,5% em 2016 para 13,8% em 2025. O próprio IBGE aponta que as taxas mais altas entre os idosos refletem um legado histórico de desigualdade no acesso à educação, ainda maior no Nordeste e no Norte.
Uma escola enorme. O Censo Escolar do Inep registrou 46 milhões de matrículas na educação básica em 2025, cerca de 1 milhão a menos que no ano anterior.
Quem viveu a escola de antigamente costuma estranhar outra mudança: hoje, terminar a educação básica é a expectativa para todos. Em 2025, segundo o IBGE, 59,4% das mulheres e 55,2% dos homens com 25 anos ou mais tinham completado pelo menos a educação básica obrigatória. Ainda falta muito, mas é outro patamar.
3. A lei de 2025 que restringiu o celular nas escolas
Se o mimeógrafo era o símbolo da escola de antes, o celular é o centro da discussão de agora. Em 13 de janeiro de 2025, foi sancionada a Lei 15.100, que regula o uso de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais, inclusive celulares, pelos estudantes da educação básica, em escolas públicas e privadas.
O que a lei diz, de forma direta:
- É proibido usar o celular durante a aula, o recreio e os intervalos entre as aulas, em todas as etapas da educação básica (art. 2º).
- “Sala de aula” vale para todos os espaços onde há atividade pedagógica, não só para a sala com carteiras (art. 1º, parágrafo único).
- Exceção pedagógica: o uso em aula é permitido para fins estritamente pedagógicos ou didáticos, com orientação dos profissionais de educação (art. 2º, § 1º).
- Emergências e necessidade: ficam de fora as situações de estado de perigo, estado de necessidade ou força maior (art. 2º, § 2º).
- Acessibilidade, inclusão e saúde: o uso é permitido, em qualquer etapa e local, para garantir acessibilidade, inclusão, atender às condições de saúde dos estudantes e garantir direitos fundamentais (art. 3º).
- Saúde mental: as redes e escolas devem criar estratégias para tratar do sofrimento psíquico e da saúde mental dos alunos, com treinamentos periódicos e espaços de escuta e acolhimento (art. 4º).
O objetivo declarado da lei é salvaguardar a saúde mental, física e psíquica de crianças e adolescentes. Para os avós, a cena tem um quê de ironia: depois de décadas de campanha para pôr a tecnologia na escola, o país decidiu que, pelo menos no recreio, a criançada vai ter de conversar, correr e brincar como antigamente.
4. O que não muda
Algumas coisas atravessam gerações intactas, com ou sem celular:
A cola. Mudou de suporte (do papelzinho na manga para a garrafinha com o rótulo reescrito), mas a criatividade continua a mesma. E o professor continua percebendo.
O intervalo. O melhor momento do dia, para quase todo mundo, em qualquer década.
A fila. Para entrar, para a merenda, para a vacina, para a foto da turma.
O apelido. Quem ganhou um na quinta série provavelmente ainda é chamado assim no grupo dos ex-colegas.
O professor inesquecível. Toda geração tem aquele que mudou o rumo de alguém. Se o seu ainda está por aí, talvez valha mandar uma mensagem.
A ansiedade da véspera de prova. O estudo de última hora, a promessa de “semestre que vem eu começo cedo” e o alívio na saída.
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Fontes
Todas acessadas em 28/10/2026.
- Lei 15.100, de 13 de janeiro de 2025 (Planalto): arts. 1º a 4º.
- IBGE: PNAD Contínua, Educação 2025 (informativo): média de anos de estudo (9,1 em 2016; 10,2 em 2025; por sexo e região), analfabetismo (8,4 milhões e 4,9% em 2025; 60 anos ou mais: 20,5% em 2016 e 13,8% em 2025) e conclusão da educação básica por sexo.
- Inep: Censo Escolar da Educação Básica 2025, notas estatísticas e Inep: o perfil dos 46 milhões de estudantes: 46 milhões de matrículas em 2025, cerca de 1 milhão a menos que em 2024.
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